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Sábado, 04 de Setembro de 2010
Os Hadza PDF Imprimir e-mail
05-Fev-2010
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Os Hadza
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Não cultivam alimentos, não criam gado e vivem sem regras nem calendários. Levam uma existência de caçadores-recolectores que pouco mudou nos últimos dez mil anos. Saberão eles algo que nós esquecemos?

A música de um canto ritmado paira no ar vinda do acampamento das mulheres. Onwas menciona uma árvore que viu durante as suas viagens diurnas. Os homens em volta da fogueira aproximam-se mais. Fica num sítio difícil, explica Onwas, no cume de um monte íngreme que se ergue no meio da planície coberta de capim. No entanto, a árvore, com os ramos estendidos como braços, está carregada de babuínos. Mais murmúrios. Faúlhas ascendem directas ao céu repleto de estrelas. Chegaram a um acordo. Todos se levantam e agarram no arco de caçada.

Onwas é um homem velho, talvez com mais de 60 anos. Os anos não são uma unidade de tempo usada nesta cultura. É magro, mas está em boa forma. Tem provavelmente 1,50 metros de altura. Nos braços e no peito, vêem-se os hieróglifos de uma vida passada no mato: cicatrizes de caçadas, de mordeduras de cobra, de setas e facas, de escorpiões e espinhos. Cicatrizes de quedas de um embondeiro. Cicatrizes do ataque de um leopardo. Restam-lhe metade dos dentes.

Usa sandálias e calções esfarrapados. Traz uma faca de caça atada à cintura. Despiu a camisa, como a maioria dos outros homens, porque quer fundir-se com a noite. Onwas olha para mim e exprime-se durante alguns instantes em hadzane, o seu idioma nativo. Aos meus ouvidos, soa estranhamente bipolar: jovial e suave numa ou duas frases e, depois, áspero e percutivo, com diques da língua e sons da glote. É uma língua sem parentes próximos entre as actualmente existentes.

Cheguei à terra dos hadza, no Norte da Tanzânia, acompanhado de uma intérprete, uma mulher hadza chamada Mariamu, sobrinha de Onwas. Ela andou na escola durante onze anos e é uma de meia dúzia de pessoas no mundo que fala inglês e hadzane. Interpreta para mim as palavras de Onwas: quero ir com eles?

O simples facto de aqui ter chegado não foi fácil. Os anos não são a única unidade de tempo não seguida pelos hadza. Eles também ignoram as horas, os dias, as semanas e os meses. O idioma hadza nem sequer tem palavras para números superiores a três ou quatro. Marcar uma reunião pode ser complicado. Mas eu contactei o dono de um acampamento turístico nas proximidades do território hadza para ver se arranjava forma de passar uma temporada com um grupo isolado.

No decorrer de uma viagem pelo mato, ele encontrou Onwas e perguntou-lhe, em suaíli, se eu podia visitá-los. Os hadza tendem a ser um povo gregário e Onwas assentiu. Disse-me que eu seria o primeiro estrangeiro a viver no acampamento. Prometeu mandar o filho a uma árvore ao fundo do mato para se encontrar comigo, quando chegasse a data prevista para a minha vinda, três semanas mais tarde.

Passadas três semanas, quando eu e a intérprete chegámos ao mato, lá estava o filho de Onwas, Ngaola, à espera. Aparentemente, Onwas observou as fases da Lua e, quando achou ter passado tempo suficiente, mandou o filho dirigir-se à árvore. Perguntei a Ngaola se esperara muito tempo por mim. "Não”; disse-me. "Só alguns dias.”

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A princípio, as cerca de 25 pessoas do acampamento sentiam-se pouco à vontade com a minha presença. Muitos olhavam fixamente para mim. Eu levara um álbum, que ajudou a atenuar a estranheza. Onwas ficou interessado numa imagem do meu gato. "Que sabor tem?” perguntou-me. Por fim, na terceira noite, perguntou me se eu queria juntar-me à caçada. Eu quero. Fico com a camisa vestida, pois a minha pele não se funde bem na noite, mas sigo Onwas e os caçadores.

Saímos do acampamento formando uma fila. Atravessar o território hadza na escuridão é um desafio: arbustos espinhosos e acácias com picos dominam o terreno e, mesmo durante o dia, não há como evitar ser cortado, arranhado e furado. Os hadza passam boa parte do seu tempo livre a remover espinhos uns dos outros.

De noite, os espinhos são invisíveis. Há poucos trilhos. Caminhar com confiança pelo mato, às escuras, sem uma lanterna, exige o tipo de familiaridade que temos, por exemplo, com o nosso quarto. Só que este é um quarto com 2.500 quilómetros quadrados, com leões, leopardos e hienas rondando nas sombras.

A orientação não é problema para Onwas. Ele viveu toda a vida no mato. Sabe acender uma fogueira, rodando um pau entre as palmas das mãos, em menos de 30 segundos. Sabe conversar com aves que indicam onde existe mel, trocando assobios com elas para ser conduzido directamente a uma colmeia. Ele sabe tudo o que há para saber sobre o mato e quase nada sobre a terra que existe além dele.

Certa vez, mostrei a Onwas um planisfério. Abri-o sobre a terra e pus pedras nos cantos. Uma multidão reuniu-se em redor. Onwas olhava fixamente. Apontei para o continente africano, depois para o país da Tanzânia e depois para a região onde ele vivia. Mostrei-lhe os Estados Unidos da América. Ele disse que não conhecia. Perguntei lhe, o mais educadamente possível, se sabia algo sobre qualquer país. Ele parou um instante e de repente gritou: "Londres." Ele não sabia o que Londres era. Mas sabia que era um sítio e que não ficava no mato.

Cerca de mil hadza vivem na sua terra tradicional, uma planície ampla que engloba o lago salgado de Eyasi, de águas pouco profundas, e é abrigada pelos contrafortes do vale do Grande Rifte. Alguns mudaram-se para perto de aldeias e aceitaram empregos. No entanto, um quarto de todos os hadza, incluindo os do acampamento de Onwas, continua a ser caçador-recolector.

Não têm agricultura, gado ou abrigos permanentes. Vivem a sul da mesma zona do vale onde foram descobertas algumas das mais antigas provas fósseis de seres humanos primitivos. Os testes genéticos indicam que podem representar uma das raízes primitivas da árvore genealógica humana, talvez com mais de cem mil anos de idade.



 
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