| Lagoa de São Pedro: trinta anos a acartar água |
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| 04-Fev-2010 | |
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Estêvão Jonce, de 34 anos de idade e morador da zona há 30, queixa-se da situação a que ele e os seus vizinhos se viram submetidos. “Hoje em dia, passamos a vida a retirar água de dentro de casa para o quintal e deste para fora da residência”, lamentou o morador, assegurando que nem mesmo essas operações diárias reduzem as águas, que ocupam a maior parte dos compartimentos de sua casa. Na ocasião em que decorria a nossa reportagem, Jonce, seus tios, irmãos e sobrinhos, bem como seus filhos, encontravam-se a retirar a água da sala para o quintal. A capacidade dos baldes que usavam era de 10 litros, isso para não falar de outros recipientes em forma de bidões cortados, que carregavam entre 20 e 25 litros de água. De acordo com Jonce, “mesmo assim quase não se está a fazer nada, porque, à medida que se tira, também se eleva o nível da água no interior da residência”. Nesse momento, o nível da água passava os 50 centímetros de altura na cozinha, sala e marquise. O quarto do fundo, onde se encontrava a dormir um bebé de seis meses, era o único sector da residência menos atingido pelas águas. Insegura, a mãe da criança tinha a responsabilidade de ir vê-la de cinco em cinco minutos, interrompendo, repetidas vezes, a sua participação na operação familiar do despejo de água. Sobre isso, o nosso interlocutor explicou que ”como as águas emergem a toda hora, não é aconselhável ficar mais 10 minutos sem se verificar o estado da casa”. Por essa razão, há dias em que Estêvão e os seus irmãos varões passam a noite em cima da mesa, para evitarem dormir todos num quarto ou então serem surpreendidos pelas águas durante a noite. Durante o dia, as cadeiras e outros haveres são colocados por cima da mesa. Calor, mosquitos e outros insectos parecem ter forçado a convivência com os familiares de Estêvão Jonce, que acham inútil lutar contra os males. Apesar de antiga, aquela zona do bairro Hoji-Ya-Henda foi erguida por cima de um lençol freático progressivo, o que explica o agravamento da situação com o passar do tempo. Jonce lembrou que, na altura em que ele e os seus pais chegaram para viver no local, só existia uma cacimba de água, que servia de fonte alternativa para os moradores. “Isso era uma cacimba bonita onde as pessoas acorriam, quando houvesse falta do precioso líquido em Luanda e a água só chegava aqui ao lado das casas”, recordou, acrescentando que “as chuvas foram destruindo o poço e o local foi-se tornando lamacento, ao ponto de ficar cheio de água por baixo e por cima”. Embora não quisesse dar a cara, o seu tio questionou a morosidade que a Administração Municipal leva para dar solução a um caso que envolve mais de 100 famílias. “Não é justo num município haver uma Administração que tem conhecimento do risco de vida que correm mais de 100 famílias e vem aqui, limita-se a colocar número nas casas e promete melhoria”, desabafou. O ancião lembrou que, há tempo, os homens da Administração Municipal do Cazenga enumeraram as residências, com o objectivo de retirarem paulatinamente o pessoal e até à data não regressaram sequer para dizer como anda o projecto. Profundamente chocado com a situação, o mais velho propõe ao Governo que “aproveite a presença dos chineses” para mandar erguer uma vala de drenagem semelhante à do Bungo. “Enquanto os chineses estão aqui em Angola, não custa nada, o Governo pode mandá-los fazerem uma vala igual à do Bungo ou da Cidadela”, sugeriu o ancião, alegando que vão gastar meses a suportar os transtornos das obras, mas ganharão vida de novo. Por sua vez, Biju mostrou-se preocupado com a grande quantidade de lixo que se junta à água esverdeada. “A situação da água deixou de ser um caso por falar, mas o lixo que invade a área alagada devia constar das prioridades das empresas de saneamento”, disse a jovem. A combinação de água e lixo constitui um grande foco de doenças. Outra preocupação do residente na área há 31 anos tem a ver com o facto de as crianças preferirem o charco como um espaço de brincadeiras. “Todas as crianças do bairro brincam aqui e já houve situações em que tivemos de salvar alguns deles de afogamentos”, contou Biju. No princípio, umas das operadoras de limpeza que actuava no município passava para recolher o lixo que invadia a água, mas esta instituição acabou por desistir desse trabalho. O PAÍS constatou na lagoa de São Pedro uma diversidade de lixo que engloba restos de comida, garrafas e latas de cerveja e gasosa, animais mortos, para além de sucatas e saídas de fossas destruídas pelas águas lacustres. Fonte: O País, 4 de Fevereiro de 2010 |
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