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O que 2010 ía ser (e não é) | O que 2010 ía ser (e não é) |
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| 04-Fev-2010 | ||||
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![]() E, como num namoro que se precipitou, chega o momento em que o futuro se vira para o presente e diz: "Temos de falar. O problema não és tu, sou eu. Preciso de estar sozinho para decidir o que quero da minha vida." Só que o presente não vive sem o futuro - o cinema que o diga. E é por isso que para 2010 se projectou muito. E muito foi de mais. Primeira grande desilusão: "Há uns anos, tinha-se uma grande expectativa em relação à inteligência artificial e de como ela permitiria desenvolver produtos que tomassem decisões simples e executassem tarefas elementares como um humano." Na realidade, a inteligência artificial é hoje usada em muitas situações, "mas não chega à idealização preconizada.” Veja-se a diferença entre os computadores actuais é o famoso Hal 9000 do filme 2001, Odisseia no Espaço, baseado na obra de Artur C. Clark", diz José Fonseca, investigador e detentor do William Carter Award, uma espécie de Nobel da Fiabilidade Económica, que, como a maioria dos leitores, viu muitos filmes, leu muitos livros, teve muitas esperanças. Esta "inteligência artificial aparece em obras como as do Izaac Asimov (por exemplo, I Robot, publicado na década de 50), onde os robôs têm cérebros positrónicos com um funcionamento semelhante ao nosso. Só que, embora já haja robôs que executam algumas tarefas com relativa autonomia, estas são muito elementares." A verdade, diz, é que "os existentes executam repetidamente e com exactidão as tarefas que são previamente programadas, mas não é possível terem uma opinião". A acreditar no I Robot de Asimov, "em 1998 já haveria robôs humanóides babysitters em casa das pessoas, em 2002 os robôs já falariam, e em 2015 já seriam tão evoluídos, que iriam em expedições espaciais com humanos ao planeta Mercúrio para escavações de minério e tinham a capacidade de raciocínio". Segunda desilusão: o único teletransporte que conhecemos é o que fazemos quando andamos de telemóvel no bolso. "As máquinas de teletransporte parecem efectivamente difíceis de materializar no nosso mundo, além de aparecerem nas séries e filmes Star Trek", diz José Fonseca. Não há duas sem três? Terceira desilusão: "Associada à medicina, a inteligência artificial e a robótica permitiriam a substituição de membros do nosso corpo por partes cibernéticas que funcionariam perfeitamente, tal como os originais. Como sabemos, e embora já se possam colocar certas próteses em órgãos tão vitais como o coração, também ainda estamos longe de onde a ficção científica nos colocaria nesta década." Nem um homem em Marte É a quarta desilusão: já mandámos sondas para Marte, mas não homens (ou mulheres). "A conquista do espaço sofreu uma forte desaceleração desde a Guerra Fria, e as viagens espaciais são só para uma elite muito restrita. Quem na década de 70 não imaginaria que já poderíamos estar muito mais avançados em termos espaciais em 2000 ou 2010?", pergunta o especialista. E dá a resposta: pode ser uma questão de dinheiro. E pode ser que "o investimento privado seja a chave para esta questão", com o turismo espacial a crescer nesta década, com novos investimentos, como a Virgin Galactic, de Richard Branson. A quinta desilusão chega por e-mail: "A interface entre o homem e o computador também tem evoluído pouco. Desde a década de 80, em que foi introduzido o rato, que ainda usamos o computador da mesma forma: com teclado e rato. Na década que passou houve avanços nesta área, com o aparecimento do iPhone da Apple e da consola WII da Nintendo, mas ainda não chegámos ao nível do filme Minority Report." Em sexto lugar nesta lista de desalentos surge a massificação de carros 100% eléctricos ou movidos a outros combustíveis. "Eles já existem, mas não em grande escala. E também ainda não temos os carros flutuantes, tão comuns em filmes de acção científica." E é isto: 2010 parece um mau filme de ficção científica. Mas tudo isto se explica. Segundo Sandro Mendonça, do departamento de Economia do ISCTE e membro da direcção da Rede Europeia da Economia da Comunicação, no início da década a Europa tinha como grande objectivo para 2010 aumentar o investimento na investigação e no desenvolvimento. "Japão e Estados Unidos eram os seus grandes rivais, com investimentos mais altos. A Europa falhou, o Japão apresentou grande volatilidade no investimento, e os Estados Unidos desapostaram na criação de conhecimento novo." No que é que isto resulta? "Na área da biotecnologia, por exemplo, todo o conhecimento que obtivemos em relação ao genoma humano não teve efeitos. As farmacêuticas continuam no mesmo lugar, não se criaram vacinas com um target mais definido, mais afinado ao perfil de cada pessoa. Dez anos depois de o genoma ter sido descodificado, não se avançou." Ou seja, apesar de algumas descobertas, "houve pouco retorno ao nível de novos produtos socialmente úteis". Mas nem tudo são más notícias, claro. "Na área da exploração espacial, há anos que se percebeu que os sonhos das décadas de 50 e 60, sobre hotéis em órbita, bases na Lua, viagens a Marte e exploração mineira algures no espaço não iam acontecer tão cedo. O que não quer dizer que não tenham ocorrido algumas surpresas de certa forma inesperadas", diz José Saraiva, investigador no CERENA (Centro de Recursos Naturais e Ambiente) do Instituto Superior Técnico. |
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