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Sábado, 04 de Setembro de 2010
Veneza desaparecendo PDF Imprimir e-mail
25-Set-2009
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Veneza desaparecendo
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O mundo ama a encantadora cidade a que Thomas Mann chamou “parte conto de fadas, parte armadilha para turistas”.

Em nenhum recanto de Itália existe uma crise mais bem emoldurada do que em Veneza. Não pertencendo à terra nem à água, mas tremeluzindo algures entre ambas, a cidade flutua como uma miragem no meio de uma lagoa situada no topo do Adriático. Durante séculos a fio, a cidade ameaçou desaparecer sob as ondas da acqua alta, as inexoravelmente regulares cheias causadas pela associação cúmplice entre a enchente do mar e o afundamento dos alicerces, mas esse é o menor dos seus problemas.

Façam a pergunta ao presidente da câmara Massimo Cacciari, um professor de filosofia pensativo e enérgico, fluente em alemão, latim e grego antigo, tradutor da "Antígona", de Sófocles, homem que eleva o nível do debate quase até à estratosfera. Questionado sobre o afundamento de Veneza, ele responde: "Ora, comprem botas." Ou seja, quem quiser que calce as botas.

As botas são boas para andar na água, mas inúteis contra a cheia que leva mais gente a torcer as mãos de desespero do que qualquer maré alta na lagoa: a cheia do turismo. Em 2007, havia 60 mil venezianos residentes. No mesmo ano, chegaram 21 milhões de turistas.

Em Maio de 2008, por exemplo, num fim-de-semana, 80 mil turistas desceram sobre a cidade, como gafanhotos sobre os campos do Egipto. Os parques de estacionamento em Mestre, a zona continental do município onde se estaciona o automóvel e se apanha o autocarro ou o comboio até ao centro histórico, ficaram sobrelotados. Os turistas que conseguiram entrar em Veneza inundaram as ruas como cardumes, devorando pizzas e gelados e deixando atrás de si um rasto de papel e garrafas de plástico.

La Serenissima ("a mais serena"), como Veneza é conhecida, é tudo menos isso. O mundo mergulha na requintadamente talhada pia baptismal da cidade, de guia de viagens na mão e com as fantasias emaladas juntamente com a escova de dentes e os sapatos robustos. Pluf! E lá se vão embora os venezianos. O turismo não é o único factor que contribui para a aceleração do êxodo, mas uma pergunta paira no ar: quem será o último veneziano a ficar na cidade?

"Veneza é uma cidade encantadora", afirmou o director de uma fundação cultural. Da sua janela, podíamos abarcar com o olhar toda a bacia de São Marcos, com a interminável frota de lanchas, gôndolas e vaporetti (os típicos autocarros aquáticos), e a própria praça, epicentro do turismo veneziano. "Na verdade, é um enorme teatro. Quem tiver dinheiro pode alugar um apartamento num palácio do século XVII com criados e fingir que é um aristocrata."

Por favor, aos vossos lugares. Nesta peça de teatro, Veneza desempenha um duplo papel. Existe Veneza, a cidade onde vivem pessoas, e Veneza, a cidade visitada pelos turistas. A luminotecnia, os cenários e os figurinos são belos, mas o enredo é confuso e tem um fim incerto. Uma coisa é certa: todos estão desesperadamente apaixonados pela personagem principal.

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"A beleza é difícil", afirmou o presidente da câmara como se falasse perante um seminário de pós-graduação em estética, esquecendo-se que estava a responder a uma pergunta sobre política municipal. Citou Ezra Pound (o poeta americano que está sepultado em Veneza), que, por sua vez, citara a frase de Aubrey Beardsley a William Butler Yeats, numa espécie de jogo literário indirecto. Ser indirecto é tão veneziano como as curvas do Grande Canal.

Massimo Cacciari, cuja fama de arrogância rivaliza com a sua fama de eloquência, parecia tomado por um humor tão negro como o seu cabelo e a sua viçosa barba. No dia anterior, uma chuvada torrencial inundara Mestre. Foi a chuva que provocou a cheia, não a acqua alta, explicou. "As MOSE [barreiras contra cheias actualmente em construção] não teriam ajudado. Para mim, a maré alta não é um problema. É um problema para vocês, estrangeiros." Fim de discussão sobre as cheias.

Os problemas têm outra origem, insistiu ele. O custo da manutenção: "O Estado não dá dinheiro suficiente para cobrir tudo. Temos de limpar canais, restaurar edifícios, elevar os alicerces. É caro." E ainda há o custo de vida: "É três vezes mais caro viver aqui do que em Mogliano, a 20 quilómetros daqui. Só os ricos ou os idosos, que herdaram as casas onde vivem, podem cá viver. Os jovens? Não têm dinheiro que chegue."

Por fim, há o turismo. Cacciari, o filósofo, refere-se ao assunto nos seguintes termos: "Veneza não é um sítio sentimental para passar a lua-de-mel. É um lugar forte, contraditório e esmagador. Não é uma cidade para turistas. E não pode ser reduzida a um bilhete-postal."

"Fecharia a cidade aos turistas?", perguntei. "Sim. Fecharia Veneza ou então, pensando bem, talvez impusesse um breve exame de admissão e uma pequena taxa." Olhou-me, divertido. Acrescentem essa pequena taxa a preços ridiculamente altos. Os turistas pagam 7 euros para andar de vaporetto, 9 por um refrigerante no Café Florian, 28 por uma máscara de Carnaval de plástico, provavelmente fabricada na China.

O visitante também pode comprar um palácio. "A melhor localização é o Grande Canal", afirmou Eugenio Scola, enquanto conversávamos no gabinete do escritório da sua agência imobiliária, com vista sobre San Marco. Vestia um casaco negro de corte esplêndido, uma camisa de algodão de branco imaculado, calças de ganga com cinto de pele de crocodilo e mocassins negros com o brilho da pele engraxada. Durante muitos anos, os compradores foram americanos, britânicos e outros europeus, comentou. "Mas agora aparecem russos. E também chineses."



 
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