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Quinta-Feira, 09 de Setembro de 2010
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28-Jun-2008
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Os negros que mudaram a América
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A provável vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, a 4 de Novembro, criaram uma espécie de renascimento negro. Eis a história dos negros que mudaram a América.

Há 143 anos eram escravos; há 40 anos espancados quando se manifestavam pelo reconhecimento dos seus direitos cívicos. Em Novembro deste ano, um negro pode tomar-se o homem mais ponderoso do mundo.

Filho de um queniano e de uma americana do Kansas, Barack Obama não tem antepassados que tenham sofrido o maior trauma dos negros americanos: a escravatura. Mas a escolha do senador de Illinois como o candidato democrata à Casa Branca foi recebida com euforia pelos 36 milhões de afro-americanos (13% da população). Estes querem acreditar que, depois de séculos privados de liberdade e décadas de discriminação, os negros também têm direito ao sonho americano e a ver um dos seus na Casa Branca. Mesmo que seja um representante atípico da comunidade, criado por uma mãe e avós brancos, educado durante alguns anos numa escola islâmica da Indonésia, para onde foi viver com o padrasto. Se Obama vai ou não vencer as presidenciais de Novembro contra o republicano John McCain ninguém sabe. Mas a sua nomeação já é um feito histórico, só possível graças aos esforços de homens e mulheres como Booker T. Washington, W.E.B Du Bois, Martin Luther King ou Toni Morrison.

Quem viu o filme Amistad com certeza não esqueceu Cinque, o jovem que liderou a revolta dos escravos contra os negreiros espanhóis e acabou por conduzi-los aos EUA. A personagem interpretada por Djimon Hounsou no filme de Steven Spielberg existiu mesmo e tornou-se num ícone de abolicionismo. Sengbe Pieh nasceu no que é hoje a Serra Leoa, por volta de 1815. Filho de um chefe tribal, era já casado e pai de três filhos quando foi capturado pelos espanhóis, em 1839, e levado para Cuba. Foram os negreiros que lhe chamaram Cinque. Comprado em Havana por Ramon Ferrer e embarcado com outra meia centena de escravos no veleiro Amistad, Cinque conseguiu matar Ferrer e tentou obrigar o comandante a levá-lo e aos outros escravos de regresso a África. O Amistad acabou por ser interceptado pela Marinha americana e conduzido para New Haven, onde os escravos foram detidos. Levado ao Supremo Tribunal, o caso chamou a atenção do ex-presidente John Quincy Adams, que, com um discurso de oito horas, conseguiu a libertação dos escravos e estabeleceu que os que escapassem a um cativeiro ilegal deviam ser tratados como homens livres. De regresso à Serra Leoa com uns missionários que aí se instalaram, Cinque desapareceu. Há relatos segundo os quais se terá tomado um comerciante de escravos bem-sucedido, mas ficou para sempre na História dos EUA como ícone da causa abolicionista.

A primeira vez que Booker T. Washington entrou numa escola foi para levar os livros do filho do seu dono. Nascido em 1856 numa plantação de tabaco, este filho de uma cozinheira e de um branco não aprendeu a ler, uma vez que os escravos estavam proibidos de receber educação. Quando a Emancipação foi proclamada por Abraham Lincoln em 1865, acreditou que o seu futuro podia ser diferente. E quando a mãe e o padrasto se mudaram para a Virgínia, começou a trabalhar numa mina de sal de manhã e a ir à escola à tarde. Aos 16 anos, percorreu a pé os 750 quilómetros que o separavam do Instituto Hampton, onde ouvira que os negros podiam assistir ás aulas e pagar com trabalho. Esta decisão mudou a sua vida. Depois de formado, tornou-se professor, tendo depois sido nomeado director do Instituto no Alabama. O antigo escravo passou a ser um dos negros mais influentes do seu tempo, de tal forma que foi o primeiro a jantar na Casa Branca, em 1901, o convite de Theodore Roosevelt. Isso só reforçou os que o acusavam de ser demasiado dócil com o poder branco. Mais tarde veio, contudo, a saber-se que Washington financiava em segredo organizações anti-segregacionistas. Meses antes de morrer, em 1915, participou num protesto contra a forma como os negros eram retratados no filme "O Nascimento de uma Nação".



 
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